San Pedro Valley: O que é a comunidade de startups de Belo Horizonte

Tempo de leitura: 22 minutos

San Pedro Valley é uma comunidade com mais de 300 startups localizada em Belo Horizonte. Eleita por duas vezes seguidas como melhor comunidade de startups do Brasil pelo Spark Awards (hoje Startup Awards), premiação realizada pela Associação Brasileira de Startups, no CASE, evento aunal de Startups da ABS.

Muitos dizem que o San Pedro Valley é a melhor comunidade do país. Eu acho essa discussão irrelevante. Há tantas comunidades e empreendedores de grande valor espalhados por todo o Brasil que seria uma injustiça polarizar isso somente em BH. Inclusive, o SPV tem MUITO o que aprender com Floripa, São Paulo, Recife, Maceió e tantas e tantas outras comunidades. E isso não é demagogia minha. A realidade é que temos que comer muita farinha ainda. Eu viajei bastante pelo país esse ano e pude comprovar o quanto temos que aprender com esses caras.

Por isso, fugindo para longe polêmicas, o objetivo aqui é compartilhar os aprendizados até aqui com esse grupo de empreendedores de startups/scaleups de Belo Horizonte.

Como o San Pedro Valley surgiu

O San Pedro Valley nasceu de forma despretensiosa. Na verdade, era uma brincadeira que acabou virando coisa séria. Mas vamos começar do começo:

O embrião chamado Via6

Versão do Via6 logo quando entrei
Versão do Via6 logo quando entrei

Se eu não estiver equivocado com as datas, em 2009, comecei a tabalhar numa empresa chamada Via6. Nela, conheci Diego Gomes, um dos responsáveis pela minha contratação. Eu era recém formado em Publicidade e havia começado uma pós em Design de Interação na PUC. Fui contratado para redesenhar toda a Via6, o LinkedIn brasileiro.

Quando comecei a trabalhar na Via6, conheci também o Yuri Gitahy (criador da Aceleradora e investidor anjo na Sympla), um dos caras que tocava esse projeto. Ainda sem vê-lo pessoalmente, conheci o Edmar Ferreira, que trabalhava remoto diretamente de Montes Claros. Meses depois, um novo integrante chegou. Era o Bernardo Porto (Portinho e QuickSys), fã de Delphi… Quase um ano mais tarde, com a saída do Diego, conhecemos o Vítor Peçanha, que também passou pela Via6.

Antes do Diego sair da Via6, me recordo cristalinamente dele desenhando (sim, ele já fez coisas do tipo) a primeira marca de uma empresa de dois amigos deles. Essa empresa chamava Hotmart e esses dois eram João Pedro e Mateus.

Nessa mesma época, o Diego mantinha um blog, chamado Read Write Web Brasil e contava com o Boto (vulgo Diogo Bedran) para tradução de alguns conteúdos. Blog este que se tornou o Webholic, posteriormente.

Não saberei precisar o momento, mas entre 2009 e 2010, o Diego realizou o 1º meetup de startups em BH. Bem, o 1º que eu tive conhecimento, claro. Desde então, vários e vários meetups foram realizados mais adiante.

O escritório na Major Lopes

San Pedro Valley
Peçanha, Ed, Diego, Mateus e JP, os originais

No final de 2010, a Via6 “quebrou”. E a maior parte do pessoal foi dispensada. Na virada para 2011, talvez um pouco mais pra frente, Diego e Edmar se juntaram a João Pedro e Mateus num micro-escritório sem janela no banheiro. Não para montar um negócio juntos, mas para dividir os custos de ter um escritório em BH.

Durante essa jornada, a Hotmart venceu o Sua Ideia Vale Um Milhão do Buscapé e a, então, Everwrite venceu o Prêmio RBS. Paralelamente, o Vitor Peçanha tocava a TextCorner no Startup Chile.

Não muito distante dali, Bernardo Porto liderava a DeskMetrics, na Rua Lavras. Não por muito tempo, pois ainda em 2011, Bernardo também foi ao Startup Chile.

Pouco tempo depois, quando eu já havia descontinuado o MiCasaSuCasa e iniciado o Beved, também passei a “integrar” o SPV “oficialmente”.

PS: O SPV manda muita startup para o Chile: DeskMetrics, TextCorner, Méliuz, Tysdo, Lagiar, Learncafe, Risu, Yoozon, já passaram pelo programa, por exemplo. Isso corrobora para o artigo que escrevi sobre o piso de R$150.000,00 para começar e dar tração para uma startup.

PS2: Veja os tweets que originaram a hashtag #sanpedrovalley. Role para 2011 e deleite-se 😛

Os encontros na padaria

Havia uma padaria (que até hoje não gosta de ser fotografada) onde, em muitas ocasiões, JP, MateusDiego, Ed e Portinho se encontravam. Num desses encontros, salvo engano o Mateus, soltou a frase que havia de ficar eternizada não muito tempo depois:

Nossa, aqui parece o Vale do Silício, toda hora esbarramos com um CEO de uma startup. Aqui é o San Pedro Valley (se referindo ao bairro São Pedro).

Depois dessa brincadeira, o nome pegou e outros começaram a brincar com uma Hashtag no Twitter. Estava criado “oficialmente” o nome San Pedro Valley.

A reportagem no The Next Web

San Pedro Valley no The Next Web
Primeira reportagem de grande repercussão sobre o SPV

Vendo a movimentação da hashtag, a jornalista Anna Heim do The Next Web, ficou curiosa e resolveu entrevistar algumas das startups de BH para entender o que era esse tal San Pedro Valley.

Pouco tempo depois de sair nessa reportagem, o SPV acabou parando no Manhatan Connection, do Ricardo Amorim (infelizmente o vídeo não está mais disponível). Pronto, o San Pedro Valley ganhou o Brasil e o mundo. E tudo começou com uma brincadeira despretenciosa no Bairro São Pedro, em Belo Horizonte.

Quais são as principais startups (ou scaleups) do San Pedro Valley

DeskMetrics San Pedro Valley
DeskMetrics, do Bernardo Porto, foi uma das primeiras startups do SPV

Ao longo do tempo, centenas de startups foram criadas e passaram pelo San Pedro Valley. Várias não existem mais. Vou citar as startups que, no momento em que escrevo este artigo, estão com maior destaque e que, ao mesmo tempo, estiveram próximos desde o começo do SPV e de seus primeiros passos: Aio (Barba Ruiva/Beved), Hotmart, Rock Content, Hekima, Dito, DeskMetrics (vendida em 2016), Base2 (CrowdTest), Sympla, Smarttbot, Méliuz, Tracksale, MaxMilhas, Denox, Studio Sol (Cifra Club, Letras, Palco MP3).

Atualmente, o SPV conta com mais de 300 startups na região metropolitana de Belo Horizonte. É muita coisa para uma cidade de 2,5 milhões de habitantes. Fora as startups que passam pelo SEED e também ficam em BH após o programa. É o caso da Construct LATAM, ShippifySoftruck, por exemplo.

Há tantas outras startups, mas fica complexo citar todas elas aqui. Como disse, são mais de 300. Por isso separei algumas acima que são mais antigas, possuem maior referência, respeito e autoridade da comunidade tanto pelos seus empreendedores quanto pelos demais atores do ecossistema de BH.

Como o San Pedro Valley se organiza

Bottons do San Pedro Valley
Primeiros bottons do San Pedro Valley

O San Pedro Valley não se organiza. É uma comunidade sem hierarquia. Desde que foi criado, o máximo de organização que ele teve foi com a criação de um site, usando o Represent.la para publicar aquele mapa (por mim e pelo Tomás Duarte). O domínio .org foi comprado pelo Diego.

Lideranças

Gravação do Terceiro Turno, finado Videocast do San Pedro Valley
Gravação do Terceiro Turno, finado Videocast do San Pedro Valley

A cada instante, uma pessoa se destaca em alguma coisa específica. O SPV não possui um líder formalizado. Por exemplo, durante anos, eu, Tomás e João Pedro respondíamos os e-mails do SPV, direcionando entrevistas, reportagens, tirando dúvidas, etc.

Em 2014, eu liderei o primeiro grande evento do SPV. O Goal Belo. Junto com o Jaderson (um dos idealizadores do SEED), trouxemos mais de 10 nomes internacionais para BH e fizemos um evento itinerante para mais de 600 pessoas, no total. Foram três dias intensos de programação com nomes fantásticos.

Para este evento, também contamos com a colaboração do Leandro Faria, atualmente fundador do SaaSMetrics, que ficou responsável pelo site do evento e pelas primeiras camisetas do San Pedro Valley, estas junto com o Mateus Lana, se não me falha a memória.

Outros empreendedores lideraram dezenas e dezenas de San Pedro Cerva, Meetups, eventos do Startup Chile, Startup Weekends, o Minas Startup Week, entre tantos e tantos eventos e acontecimentos. Portanto, o que vemos é cada empreendedor/ator do ecossistema levantando uma bandeira/iniciativa e tocando ela com aqueles que tiverem interesse e engajamento.

Em 2016, por exemplo, eu estive a frente, junto com uma equipe super competente, do 1º San Pedro Valley Summit que contou com mais de 1.200 pessoas presentes. Foi uma experiência especial e, sem dúvidas, foi um grande evento para a comunidade.

Apesar de eu ter puxado muita coisa para e pelo San Pedro Valley desde sua “criação”, isso não faz de mim um líder dele. Eu sou apenas mais um buscando ajudar e contribuir com os empreendedores de BH assim como tantos outros vem fazendo. E, para mim, os verdadeiros líderes são aqueles que estão fazendo sua startup deixar de ser startup e se tornar um negócio rentável e com faturamento contundente, como é o caso da própria Rock Content e Hotmart, por exemplo. Isso sim é liderança.

Grupo de Whatsapp e Slack

Primeiros empreendedores do San Pedro Valley
Primeiros empreendedores do San Pedro Valley sendo entrevistados pela Fast Company

O San Pedro Valley, em partes, cresceu muito usando um grupo no Whatsapp. Ainda quando só podia inserir 50 pessoas por grupo. Hoje, esse grupo de Whatsapp já possui outro foco e significado, porém, no início, reunia os fundadores dessa primeira geração de startups onde muita troca e colaboração acontecia. Atualmente, o grupo possui pessoas diversas, de entidades diversas e os temas são mais rasos e abrangentes.

Alguns anos depois, um canal no Slack também foi criado, mas a movimentação é bem baixa. O que vemos, na prática, é os empreendedores conversando individualmente um com o outro. Isso sim funciona de verdade.

Muito mais que um grupo no Facebook, um no Whatsapp, Telegram, Slack, o que faz toda a diferença é a possiblidade de estar a um grau de conexão de basicamente qualquer fundador de startup em BH. Eu consigo ligar pra qualquer um. A maioria dos outros empreendedores também. E é isso que faz muita diferença. Em outros graus e gerações, isso também ocorre. Por exemplo, as startups mais novas que passam pelo SEED criam um elo semelhante.

Ainda sim, o 1-1 é a forma mais poderosa e eficiente de aprender e também colaborar. Um café, um almoço, um Skype, uma mensagem privada. É assim, na minha opinião, que o negócio realmente funciona. E, o mais surpeendente é que, na maioria das vezes, mesmo com agendas super apertadas, se houver espaço, dificilmente você verá um empreendedor se negar a te receber.

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Formalização

O SPV não possui nenhuma formalização jurídica. Não é uma associação, não cobra mensalidade, não possui boleto, sua marca não é registrada. Não tem nada disso. É um grupo independente, que, inclusive por isso, tem suas muitas diferenças.

Apesar de haver alguns pontos negativos na informalidade, eu acredito que essa mesma informalidade seja um dos pontos mais fortes da comunidade. Engaja quem quiser, faz-se se tiverem a fim de fazer. Dinheiro? Bem, cada um se vira como pode. Há eventos pagos, gratuitos, mistos. Tudo de acordo com a inicitiva, seus custos, etc. Não existe regra. A marca atual do SPV (que acabou sendo feita por mim) fica num Dropbox e qualquer pessoa pode acessar e utilizá-la.

É tipo o Vale do Silício nesse sentido. Não há uma associação que envia boletos cobrando mensalidade. Apesar da proximidade de vários fundadores, uma formalização só serviria para encher o saco e tomar o seu precioso tempo que, ao invés de ir para sua startup, vai para cuidar de uma nova instituição. Não faz o menor sentido.

Quais são as conquistas do San Pedro Valley

O SPV apareceu em dezenas de jornais, revistas, mídia internacional. Foi tanta coisa que é até difícil conseguir contabilizar. Ainda sim, vou destacar uma “conquista” mais “tradicional” e outras duas que, ao meu ver, são mais perenes e realmente possuem um significado mais importante no médio e longo prazo:

Bi-campeonato no Spark Awards

Selfie vergonha alheia com o prêmio do SPV de melhor comunidade de 2014
Selfie vergonha alheia com o prêmio do SPV de melhor comunidade de 2014

No auge do crescimento e reconhecimento do San Pedro Valley, a comunidade ganhou em 2014 e 2015 o prêmio de melhor comunidade de startups do Brasil. Em 2016, foi novamente finalista, ficando entre as três melhores do país. Foi super importante para aumentar a autoridade e reconhecimento das startups daqui. Em 2015, a Sympla ganhou o prêmio de melhor startup do ano assim como a Méliuz, em 2016.

Censo inédito do San Pedro Valley

Em 2015, liderado pelo Rodrigo Cartacho, o SPV realizou um censo com algumas startups. Infelizmente, com o crescimento acentuado dos empreendimentos, os números já estão bastante desatualizados. Ainda sim, vale dar uma olhada para ter uma ideia de como o SPV cresceu de 2011 a 2015:

Alinhamento e relações com o Governo do Estado (SEED)

San Pedro Valley e Governo do Estado de Minas Gerais
Almoço com a Secretaria de Ciência e Tecnologia e empreendedores do SPV

Graças ao alinhamento entre o Governo do Estado de Minas Gerais com os empreendedores, o SEED nasceu. No começo, a aproximação foi tímida e recebida com descrença pelos fundadores das startups do San Pedro Valley. Com o tempo, o SPV passou a contribuir mais para o projeto que, no final de 2013, ficou pronto rodando suas duas primeiras turmas em 2014.

Em 2016, o projeto foi retomado e sua terceira turma foi acelerada. Para 2017, a previsão é que outras duas turmas sejam rodadas, elevando a participação de startups para um total de 200 ao término deste ano.

SEED e San Pedro Valley no Minas Startup Week
Festa de encerramento do Minas Startup Week e anúncio do retorno do SEED

SEED é um programa importante para o estado porque ele gera uma importante mão de obra qualificada para a difusão da educação empreendedora para todo o estado. Muito mais que acelerar startups, o SEED possui uma responsabilidade social de, através dos empreendedores de cada startup, levar educação empreendedora para escolas e universidades.

Presença nas eleições municipais de 2016

San Pedro Valley promoveu debate com os candidatos a PBH
San Pedro Valley promoveu debate com os candidatos a PBH

Liderado pelo João Gallo, do AppProva, o San Pedro Valley realizou um debate com 9 candidatos a Prefeitura de Belo Horizonte. Pela 1ª vez na história, o San Pedro Valley foi tema de debates e propaganda política tanto de candidatos a prefeitura quanto de vereadores.

Além desse debate, representantes do SPV se reuniram com os 2 candidatos que foram ao segundo turno das eleições para reforçar os compromissos e seguir educando os candidatos.

O resultado disso foi que, hoje, temos Deputados Federais, Deputados Estaduais, Vereadores e um Prefeito que sabem o que é e qual é a força e importância do San Pedro Valley para Belo Horizonte.

O trabalho realizado foi importantíssimo para educar e conscientizar os nossos políticos. A partir de agora, com um trabalho de acompanhamento, será possível cobrar melhorias e avanços para o setor de tecnologia da cidade e também do estado.

Outros atores cada vez mais presentes

1º Startup Weekend de BH organizado pelo João Drummond e Thiago Veloso
1º Startup Weekend de BH organizado pelo João Drummond, Thiago Veloso, Pedro Santiago e outros mais <3

Um fato importante é que a pujança do SPV fez com que vários atores diferentes do ecossistema estivessem mais próximos. Justiça seja feita, o Sebrae foi o primeiro deles. Um pouco depois, vimos a aproximação do Governo do Estado. Já em 2016, vimos uma aproximação importante também da FIEMG e, a expectativa que temos é que a Prefeitura também esteja mais presente a partir de 2017.

No âmbito privado, temos, sem dúvidas, o envolvimento de aceleradoras, coworkings, escolas que ensinam código para jovens, aproximação da economia criativa, novos fundos de investimento, grandes empresas e empresas tradicionais patrocinando eventos, hackathons e afins, entre outros. Isso também faz parte e contribui para o desenvolvimento da comunidade.

As “dissidências” e maturação do San Pedro Valley

Nada no San Pedro Valley é uma unanimidade. Tem gente que não se gosta. Tem gente que se ama. Há pessoas desonestas. Há startups que não são startups. Há empreendedores que empreendem e que não empreendem. Tem muito #mimimi também. Mas tem muita gente que faz. Muita mesmo. E os resultados são muito notórios, vide as startups já destacadas anteriormente.

Há alguns pontos que eu, particularmente, não concordo. A política de contratação de algumas startups, na minha opinião, pode dar problema no Ministério Público do Trabalho. Por isso não faço parte e me mantenho distante. Eu também não curto o estilo de sair demais na mídia, viver inflando números, passando verniz nas coisas. Tem gente que curte esse tipo de coisa. Eu não gosto e procuro estar mais próximo de quem também não gosta e não pratica essas coisas.

Como tudo na vida, há coisas boas e coisas ruins. Talvez, com o crescimento do SPV, isso seja o ruim. Há pessoas más, que deram golpes, etc e vivem soltando hashtag “#SanPedroValley”, diz que usa os produtos da startups, mas é tudo papo furado. Igualmente, desse pessoal, eu mantenho distância.

Essas experiências ruins e pessoas que acabam acrescentenado pouco ou nada, ao mesmo tempo, fizeram com que a comunidade crescesse e amadurecesse bastante. E isso é visível em várias startups menores que, hoje, começam a despontar com robustez.

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O que o San Pedro Valley é e significa hoje

Hoje, o San Pedro Valley trancende aquele grupo de amigos e pessoas próximas que se ajudavam mutuamente sem esperar nada em troca. Esse grupo não existe mais, na prática. Cada um está super focado no seu negócio e ralando muito para que eles cresçam. Sequer são uma startup mais. Faturando R$10, 20 ou 30 milhões, cada.

O SPV, na verdade, se tornou uma mentalidade. Uma cultura. A cultura da colaboração, de ajudar as pessoas sem esperar nada em troca. De buscar ver todo mundo dar certo. Isso é o San Pedro Valley.

Ao mesmo tempo que isso é bom, isso também é ruim, pois aparecem muitos aproveitadores tentando sugar mão de obra barata ou gratuita fingindo que é #SPV, mas na verdade só quer se aproveitar. Mas disso, já falei aqui.

Voltando ao que interessa, o San Pedro Valley acabou se tornando algo muito maior do que qualquer um de nós poderia imaginar. Para outros empreendedores de outras cidades, o SPV se tornou um modelo. O SPV, hoje, é um exemplo de comunidade, crescimento orgânico, amizade, cumplicidade. E isso é muito bacana, de verdade.

O que ainda falta no San Pedro Valley

O San Pedro Valley ainda não é completo e maduro como outras comunidades e regiões ao longo do globo. A seguir, alguns dos pontos que acredito serem mais urgentes para evolução do SPV:

Saídas ou aquisições

De mais importante, o SPV ainda carece muito de saídas e/ou aquisições. O SPV só existe hoje graças a venda da Akwan para o Google (aquisição que abriu as portas do SPV). Em seguida, maisum fôlego para BH com a venda da Take.Net (recomprada depois pelos fundadores). Em 2012, vimos o CEVIU ser adquirido pelo CareerBuilder. Já com o “nome estabelecido” como SPV, vimos a EzLike ser vendida para Gravity4, a DeskMetrics para a RedBricks e a AppProva sendo comprada pelo grupo Somos Educação.

Também vimos o contrário, como a Sympla adquirindo a Eventick, por exemplo. Espero ver mais exemplos bacanas como este acontecendo por aqui 😉

Sem a aquisição de empresas, não há reinvestimento de capital para criação e desenvolvimento de novas startups. Este ciclo precisa se completar para vermos mais fundadores de startups investindo em uma nova geração de empreendedores. Na minha opinião, este é o ponto mais deficitário do SPV na atualidade.

Falta de mão de obra qualificada

Outro ponto grave é a falta de mão de obra qualificada. Apesar de possuírmos excelentes escolas e faculdades, mão de obra é um problema sério. E, se o número de startups continuar crescendo, teremos uma calamidade quando o assunto for contratação. Portanto, ainda há um vácuo enorme no assunto educação e que precisa ser explorado, trabalhado e aperfeiçoado para que haja mão de obra qualificada para tanta startup. Sem isso, não haverá equilíbrio no mercado e a dificuldade para fazer uma startup vingar só ficará maior e maior.

(Justamente por isso, inclusive, é que criamos o Aio. Para auxiliar as empresas com a chamada educação continuada. Hoje, busca-se preferencialmente um fit cultural com a empresa e a aptidão técnica e demais desenvolvimentos são dados pela própria startup. E é aí que o Aio entra, sendo uma plataforma para auxiliar as empresas a armazenar, distribuir e medir a base de conhecimento de uma empresa.)

Encontros para conexões (meetups)

Uma coisa que aconteceu por conta do excesso foi o desaparecimento e desinteresse por meetups ao longo do tempo. O que, por um lado é bom, também é ruim pelo outro. Dada maturidade das startups, falta uma periodicidade maior com eventos dentro das próprias startups, bem como se vê no Vale do Silício. Quem mais tira isso do papel, atualmente, é a Rock com seus eventos que, inclusive, foram retomados recentemente.

Infraestrutura

Além destes dois pontos, os quais considero como mais urgentes ou prioritários, Belo Horizonte precisa avançar muito em infraesturtura, que está bastante precária. Internet de qualidade, acesso decente de internet nas favelas, melhorias gerais de estrutura na cidade como um todo. Sem o acesso decente e de qualidade a serviços de telefonia, internet e transporte, por exemplo, dificilmente o SPV irá conseguir manter sua mão de obra qualificada e suas startups progredindo.

Conclusão

O San Pedro Valley se tornou um nome bonito e famoso, mas poucos veem e conhecem sua realidade. Como disse antes, na minha opinião, o SPV é, hoje, uma mentalidade e não uma comunidade de startups propriamente dita. O SPV se tornou uma cultura que é muito forte, respeitada e replicada por diversas empresas de vários setores diferentes.

Outro aspecto vital do SPV é a amizade entre um grupo de pessoas. A amizade e cumplicidade daqueles jovens, lá trás, foi o que os fez aprender tanto uns com os outros ao ponto de a maioria de suas startups crescesse e vingasse pouco tempo depois. A colaboração é vital. Mas ela só funciona genuinamente entre pessoas nas quais você pode confiar. Sem isso, a colaboração morre.

Lembre-se de uma coisa importante. Ninguém precisa de uma “comunidade” para chamar de sua. Se você tem aí dois ou três outros empreendedores próximos, pode ser mais que suficiente. As vezes, subestimamos essa simplicidade. Porém, foi exatamente essa simplicidade, com pouquíssimos empreendedores, que o San Pedro Valley vingou.

Por causa da proximidade e cumplicidade de poucos o SPV virou algo de muitos, trancendendo um bairro e uma cidade e se tornando, como venho mencionando ao longo deste ano, uma mentalidade.

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Sobre Matt Montenegro

Matt Montenegro é fundador do Barba Ruiva, que funciona como um guarda-chuvas para o Beved, um mercado livre de cursos online, o Vida de Startup, este blog onde é escritor e criador e o Aio, um YouTube corporativo para base de conhecimento, comunicação interna e mini-treinamentos para empresas. Também é formado em Comunicação Social(Publicidade) na Newton Paiva, cursou a Pós-Graduação em Design de Interação na PUC e especialista em User Experience. É membro ativo do SanPedroValley, comunidade auto-gerenciada de startups da região metropolitana de Belo Horizonte.

  • Renato Louzada

    Parabéns pelo excelente artigo, Matt. Tenho acompanhado recentemente suas postagens e me surpreendido como grau de transparência e “simplicidade” (entenda-se objetividade) do conteúdo.
    Sou formado em Gestão da Qualidade e tenho direcionado meus esforços para a área do empreendedorismo criativo (se é que esse termo existe oficialmente, rs). Estou tocando uma ideia, a qual pretendo lançar ainda em 2017 juntamente com a equipe envolvida, sustentada pela denominação Startup, e o início é sempre penoso, mas o seu compartilhamento de experiências tem gerado mais do que conhecimento. Creio que ele tem sido uma motivação ímpar para quem está se aventurando nesse universo. Não estou em Minas, mas retornando, gostaria muito de visitar o SPV e, se possível, cumprimentar você que tem impulsionado meu “negócio” diretamente. Sucesso sempre!!

  • Celso Gonçalves Dias Junior

    Cara, como faço para me tornar um SPV? Queria muito levar minha startup para este ecossistema. Não mediria esforços para contribuir, como, sinceramente, sempre fiz. Mas, honestamente, onde minha startup se localiza hoje, sinto que perdemos muito em conexão e, PRINCIPALMENTE, em mentalidade.