Pessoas más estão fadadas ao fracasso

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Recentemente, me surpreendi ao perceber que poucas das pessoas bem sucedidas que eu conheço são maldosas. Há exceções, mas são poucas. Maldade não é raridade. De fato, uma coisa que a internet nos mostrou é o quanto uma pessoa pode ser má. Há algumas décadas atrás, apenas pessoas famosas e escritores profissionais publicavam suas opiniões. Hoje, qualquer um pode e assim podemos todos ver esse “long tail” de maldade que antes estava oculta.

No entanto, mesmo claramente havendo muitas pessoas maldosas por aí, é quase zero o número de pessoas bem sucedidas que eu conheço e que são de fato maldosas. Então, o que está acontecendo? Será que maldade e sucesso são inversamente proporcionais?

Parte do que está acontecendo, claro, é um viés de seleção. Eu só conheço pessoas que trabalham em alguns setores específicos: fundadores de startups, programadores, professores. Eu tendo a acreditar que pessoas de sucesso em outras áreas é que são maldosas. Talvez aquele grupinho de bem sucedidos gestores de fundo sejam maus, mas eu não sei o bastante para dizer que sim. Tudo leva a crer que a maioria desses traficantes de droga barra pesada sejam maldosos. Mas há, ao menos, um grande pedaço do planeta onde pessoas más não dominam. E parece que este território está crescendo.

Jessica, minha mulher e co-fundadora do Y Combinator, tem essa rara visão de raio x para o caráter de alguém. Ser casado com ela é como estar ao lado de um scanner de malas de aeroporto. Ela entrou no mundo de startups vindo da área de investimentos bancários e ela sempre se surpreendeu como que, consistentemente, fundadores de startup bem sucedidos se mostram boas pessoas e como que, com a mesma consistência, pessoas más fracassam como fundadores de sua respectiva startup.

Por quê? Eu acho que é por uma série de razões. Uma é que ser maldoso te faz um estúpido. E é por isso que eu odeio brigar. Você nunca faz o seu melhor trabalho da vida numa briga, afinal brigas não são suficientemente genéricas. Vencer sempre é uma função da situação e da pessoa envolvida. Você não vence brigas tendo grande idéias, mas pensando em artimanhas que funcionam em um caso específico. E ainda sim, brigar gera tanto trabalho quanto pensar sobre problemas de verdade. O que é particularmente doloroso para alguém que preocupa com o uso do seu cérebro: seu cérebro acelera rápido, mas vai para lugar nenhum assim como um carro acelerando e patinando sobre suas rodas.

Startups não vencem agredindo. Elas vencem pela superação dos seus limites. Há raras excessões, é claro, mas normalmente o caminho para vitória é seguir a corrida e não parar para ficar brigando.

Outra razão que faz com que fundadores maldosos percam é que eles não conseguem ter os melhores profissionais trabalhando com ele. Ele vai até conseguir pessoas que se juntaram a ele porque elas precisam de um trabalho. Mas os melhores profissionais sempre tem outras opções para escolher. Assim, uma pessoa má acaba não sendo capaz de convencer estes bons profissionais a trabalhar com ela a menos que de fato ela se supere neste poder do convencimento. E, enquanto ter pessoas competentes serve de ajuda para qualquer empresa, para startups é algo crítico.

Há também uma força complementar em exercício: se você quer construir algo grandioso, muito ajuda ser guiado por um espírito bondoso. Os fundadores de startups que acabam enriquecendo não são os que são guiados pelo dinheiro. Aqueles que se permitem guiar pelo dinheiro agarram aquela grande oferta de aquisição que é o que quase toda startup de sucesso acaba se deparando pelo caminho. [1] Aqueles que seguem em frente são guiados por algo mais. Eles talvez não digam de maneira explícita, mas normalmente eles estão tentando melhorar alguma coisa no mundo. O que significa que pessoas más que querem melhorar algo no mundo já possuem uma desvantagem natural. [2]

O mais excitante é que startups não são apenas um tipo aleatório de trabalho onde pessoas maldosas e bem sucedidas estão inversamente posicionadas. Esse tipo de trabalho é o futuro.

Para a maioria, sucesso significava controle e recursos assustadores. Uns obtiveram pela guerra, outros literalmente roubando dinheiro dos cofres públicos, seja por uma privatização ou por desvio como vemos na Petrobrás, por exemplo. Para muitos na história, sucesso significava um soma-zero(jogos em que o ganho de um jogador representa necessáriamente na perda para o outro jogador). E na maioria dessas maldades não havia uma desvantagem, mas provavelmente uma vantagem.

Isso está mudando. Os jogos com uma lógica diferente da soma-zero(normalmente aqueles clássicos jogos de tabuleiro) estão crescendo. Cada vez mais sua vitória não será pelejando pelo controle usando recursos amedrontadores, mas tendo novas idéias e construindo coisas novas. [3]

Há muito tempo existem “jogos” onde quem venceu foi aquele com novas idéias. No terceiro século, Arquimedes venceu assim. Ao menos, até uma invasão romana que acabou matando-o. Isso ilustra o motivo dessa mudança estar acontecendo: para que novas idéias tenham sentido, você precisa de uma graduação de ordem civil. E não apenas ir a guerra. Você também precisa se prevenir da violência econômica que os magnatas do século 19 praticaram uns contra os outros e que os países comunistas praticaram contra seus cidadãos. As pessoas precisam sentir que aquilo que elas produzem não pode ser roubado. [4]

Esse sempre foi o ponto de vista dos pensadores e é por isso que essa tendência se deu início neles. Quando você pensa em pessoas bem-sucedidas que não eram cruéis, você se depara com matemáticos, escritores e artistas. Parece que essa mesma coisa, na minha opinião, está se espalhando. Esses jogos jogados por intelectuais estão se espalhando no mundo real e isso está revertendo uma polarização histórica da relação entre maldade e sucesso.

Então, eu estou muito satisfeito em não pensar mais dessa forma. Eu e Jessica sempre trabalhamos duro para ensinar nossos filhos a não serem maus. Nós até toleramos bagunça, Mc Lanche Feliz, mas não maldade. E agora eu tenho uma razão adicional para acabar com isso e um argumento para usar que é: ser uma pessoa má te fará fracassar.

[1] Não estou afirmando que todos os fundadores que aceitam uma oferta de aquisição são guiados por dinheiro, mas muitos são. Além disso, há razões boas para ser guiado pelo dinheiro, como ajudar sua família ou ser livre para trabalhar em projetos para ajudar os outros.

[2] É improvável que toda startup de sucesso melhore o mundo. Mas seus fundadores, como pais, verdadeiramente acreditam que sim. Fundadores de sucesso amam suas empresas. E enquanto parte deste amor for cego, este amor será genuíno.

[3] Peter Thiel diria que fundadores de sucesso ainda ficam ricos controlando monopólios, mas apenas monopólios que eles criam e não que eles dominam. E enquanto isso é em grande parte uma verdade, ao mesmo tempo isso significa uma grande mudança no tipo de pessoa que ganha.

[4] Para ser justo, os romanos não mataram Arquimedes. O comandante romano ordenou que ele fosse poupado, mas ele acabou morto no caos.

Em tempos suficientemente desordenados, até mesmo pensar exige controle de recursos escassos, porque viver em si é um recurso escasso.

Artigo traduzido e adaptado do Paul Graham

Sobre Matt Montenegro

Matt Montenegro é fundador do Barba Ruiva, que funciona como um guarda-chuvas para o Beved, um mercado livre de cursos online, o Vida de Startup, este blog onde é escritor e criador e o Aio, um YouTube corporativo para base de conhecimento, comunicação interna e mini-treinamentos para empresas. Também é formado em Comunicação Social(Publicidade) na Newton Paiva, cursou a Pós-Graduação em Design de Interação na PUC e especialista em User Experience. É membro ativo do SanPedroValley, comunidade auto-gerenciada de startups da região metropolitana de Belo Horizonte.

  • Miller Miranda

    Ótima iniciativa de traduzir um artigo bom como esse!
    Sem querer ser chato (não sou professor de inglês), mas tem umas pequenas partes que poderiam serem revistas porque alteram o sentido do texto. Exemplo:
    “Jessica, minha mulher e co-fundadora do Y Combinator, tem essa rara visão de raio x para o caráter de alguém.”
    “My wife and Y Combinator cofounder Jessica is one of those rare people who have x-ray vision for character.”
    A Jessica não é bem a esposa dele, hehehe.

    No mais parabéns por tomar a iniciativa de produzir conteúdo de qualidade. Keep it up dude!

    • @disqus_lvZguCAg8I:disqus, salvo engano, o Paul se casou com a Jessica em 2008. Dá uma conferida depois.

      • Miller Miranda

        Fato @eusouomatt:disqus tá certíssimo! My fault! kkkkk
        Comecei a ler aqui e quando vi que tinha uma vesão em inglês corri lá e continuei, rs. Parabéns cara!

  • muito bom você se dispôr a traduzir esse artigo, Matt. Quando li o título achei que fosse algo sobre o livro O Efeito lúcifer, no qual quero ler em breve… ahahaha Cara, o que faz o cara “esquecer” o dinheiro e seguir em frente é o propósito…. 🙂 Tamo junto!

  • Marina Thiago

    Tem um artigo ótimo desconstruindo esse texto

    http://wescribe.co/t/suspenda-sua-crenca

    • Legal! É sempre bom trazer para mesa pontos de vista diferentes. Foi você quem escreveu?

      • Marina Thiago

        Não, li no Scribe, nesse perfil aqui (http://wescribe.co/u/o-labirinto-do-desacordo/profile)

        • Legal, obrigado pela contribuição. É sempre importante ter perspectivas diferentes. Enriquece a discussão.

          • Marina Thiago

            =)
            Achei ótimo o ponto que o Paul Graham levanta, mas os argumentos me pareceram bem fracos.
            Ainda assim, acredito e quero um ambiente que incentive mais comportamentos “do bem”. Por isso fiquei feliz em ver que um cara tão relevante como ele pense assim.