Cuidado, suas experiências estão te cegando

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Tem um monte de artigos por aí dizendo para você como ser a melhor pessoa que você pode ser, a mais criativa possível, a melhor ouvinte, a mais inteligente em auto-promoção. Bem, isso é natural. Todos nós queremos ser a melhor pessoa que conseguirmos e iremos sempre fazer tudo que estiver ao nosso alcance para ser 1 ou 2% melhor que qualquer concorrência.

Nós  lemos, experimentamos e tentamos aprender com o passado. Gastamos tanto tempo nos preocupando sobre como alcançar essa pequena porcentagem extra que acabamos ficando cegos, impossibilitados de enxergar o potencial de uma mudança maior.

Então, aqui vai uma idéia. E se ao invés de tentar forçar um pouco mais, não tentamos rasgar tudo e recomeçar do zero?

Porque você deve abandonar tudo

Eu tenho uma grande convicção que a maioria das grandes lições da vida podem ser aprendidas através do Clube da Luta de Chuck Palahniuk:

Somente após perdermos tudo é que ficamos livres para fazer qualquer coisa

Talvez você se sinta razoavelmente livre na atual situação que você se encontra, mas eu acredito que é minimamente justo dizer que nós todos estamos um tanto quanto amarrados. Amarrados não apenas pelas questões financeiras ou pelos fardos sociais que carregamos, mas pelos muros e vieses mentais que nós construimos inconscientemente.

No Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, Robert Pirsig descreve ‘the old South Indian Monkey Trap‘ —  um buraco num côco com um pouco de arroz dentro que só pode ser alcançado por esse estreito buraco. Quando o macaco consegue pegar o arroz, ele fica com o braço preso e não consegue mais tirar o braço do buraco que o prendeu — digo, isso não tem nada a ver com física, é apenas porque ele não quer abrir a mão e tirar o braço de dentro do côco.

Nas nossas vidas, nós somos todos culpados de ficar segurando o arroz — seja o arroz nossas idéias, emoções ou crenças — até mesmo quando sabemos que isso não vai ser benéfico para nós. Nós nos sentimos aprisionados pelas nossas próprias experiências quando, na verdade, basta abrirmos mão e seguirmos em frente.

Um nome mais científico para isso é Einstellung effect — a idéia de que as pre-concepções e experiências passadas podem nos cegar, literalmente, até o ponto de não sermos mais capazes de enxergar opções melhores.

Para provar a extensão do efeito o austríaco Merim Bilalic, psicologista, realizou uma série de experimentos onde ela apresentou a jogadores experientes de xadrez um cartaz oferecendo dois caminhos para vitória: um caminho mais conhecido com cinco jogadas e um mais obscuro, com apenas três jogadas.

Praticamente todos jogadores foram pelo caminho mais conhecido e, consequentemente, mais lento rumo a vitória. Bilalic pontua:

Nem mesmo estes experientes jogadores conseguiram enxergar o melhor caminho para a vitória porque o que eles já conheciam dominou suas mentes.

Experiência pode cegar tanto quanto nos iluminar.

Como arrancar as escamas que nos cegam?

A coisa mais difícil sobre tudo isso é que é quase impossível perceber. Nós criamos nossa própria visão de mundo por meio das nossas experiências passadas e amarramos nossos cérebros a fim de assumir que os eventos futuros são apenas um espelho do passado.

Indo por este caminho, nossas experiências podem de fato se tornarem pontos cegos, bloqueando-nos de enxergar de forma mais ampla (e constantemente melhor) as opções que estão diante de nós.

Então, como podemos nos treinar para enxergar novamente?

Esqueça. Seu. Ego.

Pode parecer um lugar estranho, mas o budismo, por exemplo, nos mostra algumas chaves interessantes de como podemos abandonar o nosso “eu” ou o ego que você construiu durante estes anos de experiência.

Um dos princípios fundamentais do budismo é abandonar nossos desejos e apegos às coisas materiais e relacionamentos pouco saudáveis (tanto de trabalho e pessoais). O problema é que nós nos tornamos viciados nessas relações por medo do vazio que vai substituí-los se empurrá-los de nossas mentes.

As pessoas tem dificuldade de abandonar seu sofrimento. Com medo do desconhecido, elas preferem o sofrimento que é familiar  – Thich Nhat Hanh

Mas, como muitos ótimos autores já disseram, o vazio não é algo para ser temido, mas uma oportunidade de enfrentar o mundo com olhar renovado e sem limitações quanto as nossas experiências que já se passaram.

Não havia para onde ir senão todos os lugares. Então basta seguir sob as estrelas – Jack Kerouac, On the Road

Livre-se dos seus julgamentos

Quando criemos nossa própria forma de enxergar o mundo, nós a preenchemos com aquilo que gostamos, desgostamos, nossas opiniões, moral e ética e, enquanto isso é importante, isso pode ser também o que gera grande parte da nossa cegueira.

A maneira que inconscientemente  jugamos as pessoas antes de conhecê-las é a forma mais fácil de reafirmarmos quem somos ao invés de nos abrirmos a novas percepções. Usamos nossa vivência como árbitro ao invés de permitir essa aleatoriedade e caos que a vida nos apresenta.

É nesse caos que nos tornamos mais criativos, pois como Maria Popova, fundadora do BrainPickings.org diz, criatividade é a habilidade de conectar o desconectado.

Livre-se dos seus julgamentos e permita a si mesmo ser mais aberto a essa aleatoriedade de ideias e conexões.

Seja um iniciante de novo

Na mente de um iniciante há muitas possibilidades, mas na mente dos experientes há poucas – Shunryu Suzuki

Pense se você já viu uma criança aprendendo a andar: Elas se levantam, oscilam e mesmo caindo uma e outra vez,  continuam a tentar com bastante determinação.

Quando nós estamos aprendendo uma nova habilidade nós somos imersos no básico. Experimentamos cada momento de forma plena e vivemos um estado de concentração e determinação. Uma vez que ficamos experientes em alguma coisa, nós perdemos a habilidade de ver claramente o que estamos fazendo nossa mente entra em um piloto automático. Agindo como um mero iniciante não significa jogar as experiências que temos no lixo e nos transformarmos em ingênuos, mas sim olhar para essas experiências como ferramentas que podem ser utilizadas em nosso favor.

Uma mentalidade de iniciante não significa negar a prática, significa manter a mente aberta para como aplicar nossa experiência em cada nova circunstância – Mary Jaksch

Vagueie

Permita sua mente dar um passeio. Não apenas numa tarde ou final de semana, mas por uma semana, um mês. Permitir que sua mente viaje se mostrou não apenas uma ajuda para planejar nosso futuro, mas também a turbinar a criatividade na solução de problemas permitindo que idéias tenham espaço para transitar com liberdade conectando pontos. Por isso muitas soluções parecem fora de sintonia (pense no Isacc Newton e a macieira).

Ferris-Jabr-Wandering-Mind

O que você talvez venha a ‘perder’, entretanto, será mais do que compensado quando você experimentar ir por um caminho diferente.

Reflita a respeito das coisas difíceis

Reflexão é uma das ferramentas mais importantes que temos para aprender com o passado, mas isso se torna ainda mais poderoso quando refletimos de forma objetiva. Pense em si mesmo como alguém de fora assistindo as ações e escolhas que você fez no passado. Por quê você fez aquilo? O que te fez tomar as decisões que tomou? Isso pode ter um poderoso impacto na sua habilidade de aprender coisas novas. Um estudo de Harvard mostrou que aqueles que participam de um processo duplo de aprendizagem e de ‘deliberadamente focar e pensar sobre o que deve ser feito’ melhorou a pontuação em tanto nos laboratórios quanto em experiências na vida real em aproximadamente 23%.

Reflita sobre seus vieses. Reflita nas coisas que te machucaram e se pergunte o porque. Não reflita apenas para dizer que você fez o certo. Use a reflexão como uma maneira de cavar fundo e descobrir o que inconscientemente te fez agir como agiu ou age. Se existir uma lição principal para tirar, ela seria que nossas experiências passadas colorem como nós vemos o futuro e podem nos impedir enxergar uma enorme quantidade de oportunidades diante de nós.

O peso que damos ao nosso passado talvez possa nos ajudar a reagir de forma rápida e a tomar decisões, mas pode também nos colocar em armadilhas ao ponto de passarmos a andar em círculos. Quebre o ciclo. Dê um passo atrás e dê a si mesmo a chance de olhar as coisas de forma mais objetiva sem influência da sua trajetória, pré-disposições ou pré-julgamentos. Quando você parar de definir seu futuro pelo seu passado você ficará fascinado com o que verá.

Artigo traduzido e adaptado do blog do Crew, escrito por Jory Mackay e indicado pelo Fabio Seixas, do Camiseteria, no Facebook.

Sobre Matt Montenegro

Matt Montenegro é fundador do Barba Ruiva, que funciona como um guarda-chuvas para o Beved, um mercado livre de cursos online, o Vida de Startup, este blog onde é escritor e criador e o Aio, um YouTube corporativo para base de conhecimento, comunicação interna e mini-treinamentos para empresas. Também é formado em Comunicação Social(Publicidade) na Newton Paiva, cursou a Pós-Graduação em Design de Interação na PUC e especialista em User Experience. É membro ativo do SanPedroValley, comunidade auto-gerenciada de startups da região metropolitana de Belo Horizonte.

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  • Fabio Oribka

    Um ótimo conteúdo!