Tudo o que você precisa saber sobre como entrar em uma aceleradora e como fazer seu negócio decolar durante o processo de aceleração

Tempo de leitura: 15 minutos

Muitos empreendedores acreditam que o fator determinante para o sucesso da sua startup está em ser aprovado em algum processo de aceleração. Porém, entrar em uma Aceleradora não significa que, automaticamente, seu negócio deu certo. Muito pelo contrário. Se você não tomar cuidado, pode ser que, estar em uma Aceleradora, seja o fracasso iminente do seu negócio.

Tudo isso está diretamente relacionado com a mentalidade e maturidade do empreendedor. Apesar de ser um sonho para muitos, participar de um processo de seleção significa que você terá ainda mais responsabilidade de fazer um determinado projeto vingar.

Por isso, gostaria de compartilhar com vocês alguns conceitos e práticas que podem tanto ajudar no processo de inscrição e seleção de uma startup por um programa de aceleração até dicas importantíssimas durante o processo de aceleração para que sua startup diminua consideravelmente os riscos de ficar pelo caminho.

O que é uma Aceleradora e qual a diferença para uma incubadora

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O que é uma Incubadora? Uma Incubadora de empresas é uma instituição com o objetivo de criar e desenvolver microempresas ou pequenas empresas principalmente nos seus primeiros passos. Incubadoras são mais comuns em universidades, onde possuem a importante função de abrigar empresas inovadoras recém-nascidas e projetos de pesquisa tanto no âmbito da tecnologia quanto da ciência. Fruto disso, por exemplo, são patentes, vendas das mesmas para grandes indústrias, etc.

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O que é uma Aceleradora? Uma Aceleradora é uma instituição que busca empresas (normalmente as famosas startups) que possuam um modelo capaz de obter uma rápida escala e crescimento. As Aceleradoras possuem maior foco em desenvolver essas startups através de suas metodologias (Lean Startup, Business Model Canvas, MVP, etc), metas e mentores (normalmente pessoas com experiência de mercado). Um item importante é que uma Aceleradora, na maioria dos casos, fica com um percentual do negócio em troca não apenas de sua estrutura e metodologias, mas também de algum investimento financeiro.

A cada ano que passa, mais e mais estes modelos vem se assemelhando. As Incubadoras, de forma geral, estão acolhendo metodologias e mentores de Aceleradoras para suas incubadas. Por isso, não se preocupe se, por algum momento, uma Aceleradora se parecer com uma Incubadora e vice-versa.

O que uma Aceleradora costuma oferecer para uma startup e o que ela pede em troca

Aqui é preciso redobrar a atenção. No Brasil, muitas adotaram um modelo excessivamente agressivo tomando muitos % de uma startup. Por isso, atenção com as letras miúdas e também com a tentativa de distorcer a realidade por parte dessas instituições. Eu entendo que o risco no Brasil é maior e que pode ser mais difícil obter o retorno do investimento que um programa de aceleração precisa, mas, ao mesmo tempo, a startup também tem seus riscos em confiar numa instituição com poucos resultados e experiência. O mercado brasileiro já deu uma boa avançada, mas nem aceleradora, nem startups pisam em terreno “seguro” quanto a este tema. Por isso, o bom senso precisa arbitrar nessas relações.

Isso significa, na prática, fugir daquelas que pedem 20% do seu negócio por R$ 20.000,00 a R$ 40.000,00. É muito pouco em troca de muita participação da empresa. Lembre-se, numa rodada maior, a diluição será um problema para o empreendedor.

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Escritório do Y Combinator, uma das aceleradoras mais famosas do mundo

Bem, uma Aceleradora, normalmente, oferece um espaço de trabalho, algum dinheiro, mentorias, um processo de aceleração e um acompanhamento do seu negócio. Sendo curto e grosso, é isso que você ganha em troca. Programas de aceleração privados costumam ficar com algum percentual da startup acelerada em troca dos benefícios que citei. Cada uma é composta de um conjunto de benefícios muito parecidos, porém pode ser que haja um e outro detalhe diferente, em especial nos Perks.

Aceleradoras públicas, ou seja, aquelas que possuem investimentos de algum Governo, tendem não pedir percentual da empresa em troca. Por outro lado, exigem que os empreendedores façam um massivo trabalho de divulgação do programa e difusão de educação empreendedora ao redor da região em que essa aceleradora atua (Exemplos: SEED: Minas Gerais, Startup Chile: Chile).

Algumas Aceleradoras como o SEED, Startup Chile e 500 Startups possuem uma série de perks para seus acelerados. Caso você não saiba esteja familiarizado, perks são créditos e outros benefícios por um período de tempo concedidos a startups de uma Aceleradora. como créditos na Amazon ou Google Cloud, meses grátis no Zendesk, entre muitos outros. Há programas que seguem oferecendo estes benefícios inclusive para os ex-acelerados, mais conhecidos como alumnis dos programas de aceleração.

Não despreze os perks, eles são essenciais para diminuir os custos elevados de serviços na nuvem, suporte e vários outros quando se está começando. Dependendo, os perks podem acabar valendo mais que o dinheiro propriamente dito.

Quais são as Aceleradoras brasileiras

No Brasil, temos algumas rodando. Uma das pioneiras foi a 21212, que já encerrou suas atividades. Também tivemos o Startup Brasil, iniciativa do Governo Federal e que, até o término deste artigo, não tinha novas rodas previstas. A única Aceleradora mantida por um Governo é o SEED, que é de responsabilidade do Governo do Estado de Minas Gerais e fica em Belo Horizonte. Além disso, para citar algumas, temos Aceleratech, Gema, Artemisa, Techmall, LemonadeStartup Farm, Germinadora, Biostartup Lab, entre várias outras. Vale conferir cada uma individualmente porque possuem perfis diferentes, para estágios diferentes e mentalidades também diferentes umas das outras.

Como inscrever meu projeto em uma Aceleradora

Cada programa de aceleração possui um modo de operar. O SEED utiliza o Fundacity para realizar suas inscrições. O Startup Chile usa o Younoodle. 500 Startups usa o Angel List e outras utilizam o F6S. Varia de programa para programa.

O comum entre as Aceleradoras, certamente, é o longo formulário de inscrição. Minha sugestão é SEMPRE conversar com um alumni (ex-acelerado) para entender como é a Aceleradora, a forma de pensar, o que estão buscando, etc. esse tipo de feedback ajuda MUITO na forma com a qual você vai dispor as informações no formulário de inscrição. Por isso, tenha atenção com o perfil diferente de cada uma.

TNW Index
TNW Index

Mantenha o perfil da sua startup sempre atualizado no Crunch Base, Angel List, TNW Index, Startup Base da ABS e similares. Isso ajuda quando um avaliador precisar ou quiser saber mais sobre você e sua empresa. Não deixe os perfis ficarem desatualizados, pois sem que você saiba, há pessoas que costumam dar uma monitorada nos avanços e evolução do projeto.

Além disso tudo, apareça em algum Meetup alguma vez na vida para que as pessoas saibam quem você é. Isso ajuda bastante, porque é difícil avaliar um projeto onde os seus participantes são um grupo de “indigentes”. Se relacionar minimamente bem é saudável e contribui positivamente.

Dicas preciosas que servem para qualquer inscrição para programas de aceleração

Faça um bom vídeo de apresentação do seu time e produto. Sempre legende o vídeo, não importa o idioma. Nem todos os avaliadores podem ser fluentes na língua que você está fazendo a inscrição, portanto capriche nas frases e nas legendas.

Meetup do San Pedro Valley
Meetup do San Pedro Valley

Prove ter um envolvimento minimamente relevante na comunidade de startups onde você vive. O Give First (Dê primeiro) é muito considerado e, tendo uma boa prática neste sentido fará você e seu time ganhar pontos em praticamente todos os processos de aceleração mais conhecidos mundialmente.

Amigos que já passaram pelo programa de aceleração em questão são peças fundamentais na indicação. Obter cartas de recomendação deles, indicação direta e indireta é super importante. Não estou falando de forçar a sua entrada, mas sim obter uma chancela de pessoas conhecidas e de confiança que já passaram pelo processo de aceleração em questão.

Não é obrigatório, mas busque ter um modelo de negócios claro e minimamente testado e funcionando. Isso vai variar de Aceleradora para Aceleradora, mas, de modo geral, possuir uma startup que já está faturando alguma coisa e que possui um modelo minimamente sólido também contribui bastante no processo de seleção.

Seja MUITO CLARO. Saiba escrever e responder as perguntas SEM RODEIOS. Seja objetivo, bastante transparente e com respostas que até sua mãe consegue entender. Isso vai ajudar a qualquer pessoa entender sua startup mesmo nunca tendo visto algo parecido antes.

Esquadrão Suicida :)
Esquadrão Suicida 🙂

Time. Esse fator é tão crucial que as vezes sequer fazemos idéia. As Aceleradoras em geral olham com muito cuidado este item. Não apenas elas, mas investidores igualmente. O motivo é simples. Um time bom consegue fazer até uma idéia ruim vingar. Um time médio pra ruim dificilmente consegue fazer uma boa idéia dar certo. Além desse conceito meio “piegas”, quem já viveu o bastante sabe que sociedade é mais difícil que casamento (Espero que minha esposa não leia isso. Nem meus sócios hehe). Por isso, vários processos de aceleração perguntam se vocês se conhecem, onde, como, quando, o que já fizeram juntos, etc. Tudo isso é para garantir que vocês são pessoas que, sendo amigas ou não, são muito profissionais e conseguem trabalhar juntos muito bem. Não coloque um “boneco de posto” ou “um poste” no seu time, só pra completar “a pelada”. Prefira sequer se inscrever numa seleção a fazer uma besteira dessas. Te falo, por experiência vivida muito de perto (não foi comigo, graças a Deus) que isso tem muita chance de dar errado e, ainda mais, virar um ponto enorme de distração para você. Assim, mesmo que dê muito trabalho (e vai dar), monte um time bom, profissional e, se der, que sejam bons amigos (nem sempre os sócios são super amigos. Nem precisa. Mas se puder, melhor ainda, né?).

Seja perseverante. Dificilmente você vai passar num programa de aceleração de primeira. Você vai tomar pau em vários processos antes de ser aprovado pela primeira vez. Por isso, não desista quando você não encontrar o nome da sua startup na lista de aprovados, mas siga melhorando suas inscrições, idéia e produto buscando feedbacks.

SANTA GOTHAM BATMAN, PASSAMOS NA ACELERADORA XYZ, E AGORA?

Comemore. Fique bastante feliz. Sim, entrar numa boa Aceleradora é tipo cursar uma boa faculdade. É. A faculdade pode ser a melhor e mais moderna do mundo, mas isso não fará de você, automaticamente, uma criatura fenomenal. Vai depender de como você vai se comportar durante o processo de aceleração, ou seja, se você é capaz de absorver as novidades, os aprendizados e colocar tudo isso em prática.

Por isso, para concluir, gostaria de deixar algumas dicas para você que passou numa Aceleradora e agora está consideravelmente mais responsável e pressionado a fazer seu negócio vingar:

Escritório do SEED preparado para 2ª rodada do programa

Não perca o bendito foco. Não se deixe levar pelo auê generalizado. A minoria, no final das contas, é que trabalha duro. O resto, quer mais é festa, gastar a grana de qualquer forma, etc. Inclusive, para diminuir casos do tipo, várias tem adotado metodologias de corte por etapas. Isso impele os empreendedores a trabalhar ainda mais duro e de maneira mais árdua para não perderem os benefícios que o programa de aceleração está oferecendo. Ou seja, não dê mole. Você está na Aceleradora XYZ para fazer seu negócio acontecer. Dê atenção a isso e você será recompensado mais adiante.

Não siga cegamente tudo que te disserem. Startup é tipo time de futebol. TODO MUNDO tem uma OPINIÃO pra dar. E, na maioria das vezes, é do fundo do achismo profundo que essas opiniões aparecem. Busque conferir, analisar, estudar o que te falarem. Mesmo que seja *AQUELE ULTRA MENTOR SINISTRO DAS GALÁXIAS*. Ele não é perfeito e ele pode te falar besteira do mesmo jeito. Portanto, siga a máxima “Acreditamos em Deus. Os outros tragam dados“.

OUÇA. Parece contraditório, mas não é. Ouça as pessoas. Ouça os conselhos. Obviamente verifique a viabilidade antes de sair fazendo cegamente. Mas não seja uma pessoa fechada e que não aceita nenhum tipo de crítica ou feedback. Lembre-se, você está aprendendo. Não é o dono da verdade. Não sabe tudo. Então tenha a humildade e paciência para ouvir. Isso pode ajudar. E também equilibrar as coisas.

Seja responsável com o dinheiro. Dinheiro não cai do céu. Não é eterno. Se você não for EXTREMAMENTE RESPONSÁVEL, você vai torrar a grana toda errada. Não comece com “vou gastar 80% em publicidade”. Nem pense nisso. Você tem que fazer a pouca grana que você recebeu quintuplicar, amigo. Então lembre-se disso a cada real que sair do seu bolso. O dinheiro da Aceleradora não vai durar pra sempre, por isso focar em faturar, vender, etc desde o começo é tão importante. E, igualmente, gastar com MUITA responsabilidade e inteligência. Não ache que ficar pagando likes no Facebook resolve, porque isso não vale nada. Guarde isso no coração e lembre-se de mim quando você perceber o quanto isso é assombrosamente verdadeiro.

Ainda sobre grana, saliento que o dinheiro da Aceleradora não costuma cair na sua conta no primeiro dia de aceleração. Por isso, tenha um pezinho de meia para aguentar o tranco até que as coisas se regularizem. Muita gente esquece disso e passa aperto pra valer. Assim, tenha atenção a este item para você não acabar passando fome ou dormindo na rua até que a grana caia pra você.

Contribua com as outras pessoas. Divida seu conhecimento. Ajude quem precisa. Mas equilibre sua colaboração com seu foco e trabalho. Ainda sim, não deixe de compartilhar seu conhecimento com outros. No futuro, isso será uma porta importante de entrada para outros compartilharem com você conhecimentos que você ainda não possui. Portanto, deixe sempre essa porta escancarada. Pode ser de grande valor.

Conclusão

Entrar em uma Aceleradora pode sim ser algo fantástico e também um divisor de águas para uma startup tendo em vista a dificuldade de, de maneira geral, levantar uma grana inicial para o negócio. Ao mesmo tempo, passar num programa de aceleração não é garantia de sucesso.

Quem foca em fazer sua startup vingar durante o processo de aceleração tende, por mais que pareça óbvio, a alcançar seus objetivos. Não é garantido, afinal cada negócio tem suas particularidades, mercado, etc que podem jogar tudo por terra. Ainda sim, quem não relaxa e não se perde no “oba-oba”, é normalmente quem se dá melhor.

Não se esqueça de não viver de Aceleradora em Aceleradora. E que processos de inscrição e seleção de startups demandam tempo e atenção. Por isso, enquanto você estiver focado nisso, seu negócio estará sem a atenção que precisa. Assim, seja cuidadoso, escolha bem e, faça o seu dever de casa. No devido tempo, é provável que você seja selecionado. Se não, siga seu trabalho que, mesmo que mais devagar que gostaria, ele terá grandes chances de vingar mesmo assim.

“Bônus” de um olhar unicamente pessoal

Tentei passar em 15 rodadas de aceleração de diversas aceleradoras diferentes. 500s, Wayra, Startup Chile, Plug n Play, Aceleradora e outras. Passei no SEED, na sua 1ª rodada, em 2014. Tudo que escrevi é baseado nessas experiências e nas experiências de vários amigos que, além do SEED, também estiveram presentes em várias das aceleradoras que citei anteriormente. Busque mais feedbacks e opiniões a respeito. Não te custa muito e dará uma base muito mais sólida quanto o que é, como funciona e se vale a pena entrar em uma Aceleradora.

1ª Rodada do SEED

Ainda sim, o SEED foi de grande valia para o Beved. Nele, tivemos a idéia de ingressar no mercado corporativo. Aí nasceu o embrião do Aio, que veio a se concretizar em 2015 e hoje é um dos nossos produtos na carteira do Barba Ruiva. Além desse tipo de resultado, fiz muitos amigos, aprendi muito com meus erros, com os erros dos outros e com o conhecimento que foi constantemente compartilhado lá.

Muito mais que dinheiro e perks, as novas conexões, amizades e o aprendizado, ao longo do tempo, falam muito mais alto e é o que de fato permanece.

Sobre Matt Montenegro

Matt Montenegro é fundador do Barba Ruiva, que funciona como um guarda-chuvas para o Beved, um mercado livre de cursos online, o Vida de Startup, este blog onde é escritor e criador e o Aio, um YouTube corporativo para base de conhecimento, comunicação interna e mini-treinamentos para empresas. Também é formado em Comunicação Social(Publicidade) na Newton Paiva, cursou a Pós-Graduação em Design de Interação na PUC e especialista em User Experience. É membro ativo do SanPedroValley, comunidade auto-gerenciada de startups da região metropolitana de Belo Horizonte.

  • Natty Ambrósio

    Esse artigo me pareceu uma conversa de amigo. Participando do programa de pré-aceleração do Lemonade, me identifiquei com várias situações que você descreve e percebi o quanto estou conseguindo fazer o bom proveito delas. E não há como contestar que o maior ganho que a minha startup (www.moodfoodbr.com) está tendo é o aprendizado não apenas nas bancas e com os mentores mas também com a troca de ideias com as outras equipes participantes do programa. O que era para ser um ambiente competitivo se tornou o ambiente mais colaborativo em que já trabalhei. A cultura do “Give First”, fomenta que ninguém sabe tão pouco que não possa ensinar e ninguém sabe tanto, que não possa aprender. E vejo nascendo mais uma comunidade que segue o perfil do empreendedorismo mineiro do #sanpedrovaly de interação, aprendizado, colaboratividade e cerveja, claro! 🙂