Como criar um produto de sucesso: resolva o problema e saia do caminho

Tempo de leitura: 10 minutos

Como criar um produto de sucesso? Responder essa pergunta atualmente é bem complicado, em parte devido a fatores como o aumento da concorrência e a superexposição das marcas na web, o que consequentemente cria nos consumidores uma exigência maior em relação ao que consomem. O grande desafio é justamente entender essa exigência e entregar soluções a altura, no tempo certo e da maneira mais cômoda. Do contrário, com certeza alguém vai reclamar sobre isso no Twitter ou enterrar a sua marca no Reclame Aqui.

E cumprir essa missão envolve princípios como UX Design, desenvolvimento do produto, suporte ao cliente, pesquisa com usuários, estratégias de Growth Hacking, User Onboarding, etc., e afeta até mesmo a Cultura da Startup em questão. Sem dúvida, é muito trabalho envolvido.

Mas, se fazer tudo isso ainda fosse garantia de sucesso, perfeito! Só que não é o caso, visto que voltamos no ciclo definido no início do artigo em que o alto número de competidores passando pelo mesmo processo e disputando o mesmo espaço nas mídias sociais diminui as suas chances de cair nas graças dos clientes em potencial. A grande ironia, porém, é que a maioria das startups é tão focada em seguir o “manual do sucesso” que acaba nascendo uma geração de clones que pouco acrescentam em valor aos usuários nem tampouco se destacam dos demais. Percebendo isso, começa outra guerra silenciosa, quase como um jogo de poker:

Cada startup “paga para ver” o que as outras estão fazendo e aumenta a aposta colocando sempre um feature a mais em seu produto. No fim, quem tiver a melhor mão (melhores features) vence e fica com todos os clientes.

Mas não é bem assim que funciona na prática, afinal num jogo de poker nem sempre o vencedor é aquele que realmente tem a melhor mão, mas aquele que sabe jogar melhor. Do mesmo modo, nem sempre o produto com todos os features supostamente necessários para ter um produto de sucesso é o que realmente sai vencedor no final, porém o que faz o melhor trabalho em solucionar os problemas propostos da melhor maneira possível.

Infelizmente, para quem usa produtos feitos com essa mentalidade limitada o resultado é, geralmente, ver mercados saturados de produtos similares, de baixa qualidade, atendimento pobre e uma experiência de consumo geral difícil de engolir. Sabe qual o único lado bom nisso? É que a sua startup pode se aproveitar disso.

A melhor maneira de se destacar não é lançando features, mesmo que alguns clientes o peçam. O ponto, que já foi destacado pelo Matt Montenegro neste artigo sobre cultura e valores, é aumentar a simplicidade, criar algo que resolva o problema em questão e pronto. As pessoas vão se virar para ajustar suas necessidades mais específicas ao que o produto oferece. Quer ver alguns exemplos?

Facebook

facebook

O Facebook não tinha inicialmente uma ferramenta para compartilhar fotos. A função principal do site era servir como um diretório online para ajudar os estudantes de universidades (originalmente apenas Harvard) a se conectar com seus amigos e conhecer outras pessoas baseando-se em interesses similares, como classes frequentadas e amigos em comum, e partindo desse ponto o grande foco era nos perfis de usuário, onde cada estudante podia preencher com informações sobre sí mesmo, quais classes frequentavam, etc.

Porém, com o tempo os caras do Facebook notaram que as pessoas davam atenção demais às suas fotos de perfil, até então o único espaço de fotos reservado para os usuários. De fato, elas se importavam tanto com suas fotos de perfil que as trocavam várias vezes ao dia.

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Além disso, mais de 70% dos links que os usuários colocavam nas sessões “Sobre Mim” de seus perfis eram para seus sites de fotos favoritos, como Webshots e Flickr. Ao observar esse comportamento por parte da grande maioria dos usuários, tornou-se óbvio para o Facebook qual deveria ser o próximo passo: livrar-se do que eles julgavam mais importante e possibilitar que os usuários usassem a plataforma da forma que julgavam mais adequada.

O resto nós já conhecemos, afinal compartilhar fotos se tornou tão importante no DNA do Facebook que ele logo ultrapassou o Flickr como maior diretório de fotos online do mundo, como também serviu de isca para conquistar milhões de novos usuários, especialmente aqueles que não tinham tanta familiaridade com internet ou tanto interesse por redes sociais. Se tornou comum ouvir algo do tipo:

Eu só fiz esse tal de Facebook pra ver as fotos da família que o [nome do parente] posta

E, por fim, como a cereja no topo do bolo, o Facebook comprou o Instagram, o app (transformado em rede social) de fotos mais famoso do mundo, por nada menos que 1 bilhão de dólares. Percebe como resolver o problema e sair do caminho ajudou o Facebook a crescer exponencialmente e se tornar o colosso que é hoje? Talvez sem essa mudança nos perfis a rede social tivesse rapidamente caído no esquecimento, como acontece com muitas startups que sentem a necessidade de controlar tudo no produto, mesmo quando o comportamento das pessoas que usam aquilo diz que devem seguir um rumo diferente.

Twitter
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A primeira versão do produto era consideravelmente mais simples e não contava com todos os recursos que hoje são parte do cotidiano de cada twitteiro. A ideia era justamente servir como uma versão mais “ao vivo” do LiveJournal, algo que pudesse ser atualizado em tempo real, usado em qualquer lugar, uma forma de compartilhar o status com os amigos instantaneamente. E podemos dizer que o Twitter tem todos esses elementos até hoje.

Contudo, elementos como os símbolos @ para designar um perfil de usuário ou # para agrupar assuntos pela rede do microblog não foram pensados de antemão pela equipe do Twitter, foram fruto das invenções dos próprios usuários, que foram como que hackeando a interface do site para adaptá-lo às suas necessidades conforme eles as descobriam. Foi observando o comportamento dos usuários que o site incorporou todos esses elementos à plataforma e ajudaram o Twitter a se tornar uma das maiores ferramentas de revolução da comunicação criadas até hoje, transformando o modo como as pessoas interagem com seus semelhantes, suas marcas favoritas e até mesmo orgãos do governo, alterando o modo como se faz jornalismo, influenciando novas formas de fazer negócio e por aí vai. Basicamente, podemos dizer que o Twitter é, em sí mesmo, um produto da própria revolução e democratização da informação e da comunicação que incentiva seus usuários a criar todos os dias em 140 caracteres ou menos.

Agora, vamos pensar juntos: como seria o Twitter sem essa rápida reação às necessidades e desejos da comunidade? E se eles tivessem decidido que essa simplesmente não era a visão correta e que os usuários não entendiam nada? Talvez o Twitter até existisse hoje, mas com outro nome e feito por outras pessoas, pessoas que entendessem que para criar uma comunidade tão forte como a do Twitter é preciso ouvir e empoderar essa comunidade constantemente.

Basecamp

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No primeiro livro escrito pelo pessoal do Basecamp (antes 37 Signals), chamado Getting Real, eles dedicam um capítulo (“Human Solutions”, p. 55) só para falar sobre porque é importante criar soluções que atendam um conceito geral e, então, encorajar as pessoas a criarem suas próprias soluções para problemas específicos dentro do produto.

Não force convenções nas pessoas. Antes, faça seu software generalizado para que todos possam encontrar suas próprias soluções. Dê as pessoas somente o necessário para resolver seus problemas do seu próprio jeito. E, então, saia do caminho. — Getting Real

Pensando bem, inclui um pouco do que lemos acima sobre o Twitter e o Facebook, onde os usuários criaram suas próprias soluções dentro da plataforma e somente depois das adoções em massa as empresas incorporaram essas soluções ao produto em sí. O próprio Basecamp também vive sob esse conceito em todos os seus produtos. Desde o Ta-da List, uma lista de tarefas já aposentada pela empresa, até o Basecamp, um dos maiores softwares de gerenciamento de projetos do mundo e que deixou de ser um produto para se tornar a empresa em sí, tudo é feito com extrema simplicidade e permitindo que as pessoas moldem o produto ao que precisam, e não tentando ser tudo para todo mundo, construindo soluções personalizadas para cada cenário possível, até porque isso seria impossível.

Imagine uma empresa como o Basecamp, que serve empresas do mundo inteiro em todo tipo de indústria existente, tentando construir soluções únicas para cada uma dessas empresas. O resultado seria um produto extremamente inchado, difícil de usar e provavelmente caro, o contrário de tudo o que eles entregam hoje e buscam para o futuro. O resultado de trabalhar assim? Mais de 15 milhões de pessoas já usaram o Basecamp para cuidar de seus projetos e, em média, 5 mil empresas passam a usar o produto cada semana.

Faça o melhor trabalho que você puder na raiz do problema e depois se afaste. As pessoas encontrarão suas próprias soluções e convenções dentro da sua estrutura. — Getting Real

Path

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O aplicativo Path foi lançado em 2010 como uma forma de os usuários compartilharem fotos importantes com seus amigos e familiares. Porém, o produto estagnou em 10.000 usuários ativos diariamente (daily active users, ou DAU). Após um bom tempo procurando a origem do problema, a equipe do Path descobriu que os usuários queriam postar mais do que suas fotos, mas também screenshots de seus álbuns favoritos, apps que usavam no dia a dia, etc. Finalmente, eles entenderam qual era o seu produto: um diário da vida cotidiana para compartilhar com os amigos e a familia.

O mais incrível é que eles jamais teriam descoberto por sí mesmos que era isso o que as pessoas queriam, ainda mais levando em conta que na época a privacidade estava sendo cada vez mais deixada de lado em favor da exposição das redes sociais. Somente quando eles prestaram atenção a como as pessoas desejavam usar o produto foi possível implementar mudanças que tivessem o efeito desejado. E, aliás, que efeito foi esse?

Em apenas duas semanas, o Path cresceu 50x, passando de 10.000 para 500.000 usuários ativos por dia. Por fim, basta ouvir o que o próprio Dave Morin, um dos responsáveis pelas mudanças no rumo do produto, tem a dizer sobre isso:

Não deixe um dogma ficar no caminho de dar aos usuários o que eles querem. E então, saia do caminho.

Traduzido e adaptado de Get out of the way, artigo escrito pelo Dave Morin no Medium

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Sobre Daniel Moraes

Desenvolvedor Front-End focado em User Experience e explorador de Ruby on Rails. Fundador do Status: Livre e do Contrato Certo, a melhor conexão entre empresas, profissionais e clientes. Escreve sobre negócios e design no blog do Status: Livre e no Medium.